O cantor maldito!...


Diário

Fausto

Blogosfera

Biblos

Espaço do leitor

Links








Da mais bela canção da criação...
13Out2008 20:40:00
Publicado por:

Um post sobre Fausto, ou antes onde se desvenda o título da mais bela canção da criação...


Por Este Rio Acima é vulgarmente considerado o melhor disco de música popular portuguesa. Ainda bem, diga-se, que assim é. É bom para o Fausto, é bom para a música portuguesa, é bom para quem o diz, é bom para o país. O álbum, ou antes, o duplo álbum, conta a história de Fernão Mendes Pinto, que, como sabemos, andou vinte e um anos embrulhado em aventuras extraordinárias lá para as terras da Ásia longínqua, vindo depois acabar os seus dias a escrever as memórias ali para os lados do Pragal, em Almada, nos finais do século XVI.

Se outro mérito o disco não tivesse, poderia pelo menos dizer-se que se trata de um contributo notável para fazer chegar ao maior número de pessoas a história contida no livro de Fernão Mendes, Peregrinação. Não se trata, claramente, de uma façanha de somenos importância. O ensino da língua, da literatura, do português, só tem a ganhar com isso, logo, nós também, enquanto povo. Até porque aquela história, a do Fernão, é tanto a nossa, mas tanto tanto que até o ensino da história por ali passa, ou podia passar.

Mas adiante, que não era por aqui que eu queria ir... o que eu quero dizer, e como estou em minha casa estou à vontade, é que este disco, como todos sabem (faz parte da cultura geral do português médio não é? - "português médio", ora aqui está uma expressão que detesto), é o primeiro capítulo de uma trilogia que Fausto anunciou e que está ainda por completar, isto apesar de Por Este Rio Acima ser de 1982 e Crónicas Da Terra Ardente, segundo volume da dita trindade, de 1994.

Ora isto leva-me ao tema deste mísero post: para quando o terceiro e final capítulo da saga e o que esperar dele?

Bom, analisemos as duas obras (primas) já existentes e tentemos extrair delas as respostas que escasseiam.

Por Este Rio Acima é disco de água. É disco de mar, de rio, de água. De naufrágios. De sangue e guerra claro, mas sobretudo de água, de mar alto...

"o escuro é muito grande, o tempo é muito frio, o mar é muito grosso, o vento é muito rijo, as águas são cruzadas, as vagas levantadas"...

 



O que é verdadeiramente admirável, e revelador de génio, é que pelo meio dos grandes quadros de acção que Fausto pinta, que seriam já de si dignos de realce, há sempre uma atenção ao detalhe, ao pormenor, um tratamento minucioso do tecido das emoções mais profundamente humanas que podemos sentir (oiça-se Como Um Sonho Acordado e arranje-se um substituto melhor para a palavra medo, tente-se e fracassa-se - essa canção é, para mim, o outro nome do medo). Mas findo o disco, terminada a aventura, a série de tormentos a que se escapou com vida, tantas vezes suspensa por fios, enterrada nos lodos, ao sabor das correntezas pejadas de caranguejos e peixes carnívoros, atavões e mosquitos, há um elemento natural que tudo emoldura: a água. O mar.

 

Saltemos então doze anos. 1994. Crónicas Da Terra Ardente.
Assim de repente, só pelo título, pensa-se: terra. Terra. Ok, outro elemento: terra. Bom, se ao segundo volume da trilogia temos terra, então o que virá no terceiro? Ar? É claro: ar. Talvez Fausto esteja a trabalhar a aventura de Gago Coutinho e Sacadura Cabral para o terceiro disco da trilogia... talvez... mas antes de se tirarem conclusões fáceis, analisem-se as Crónicas .

Trata-se, convém dizer, da adaptação da História Trágico-Marítima, uma antologia de literatura de naufrágios dos séculos XVI e XVII, da autoria de Bernardo Gomes de Brito, já no século XVIII (1735-36). Os textos recolhidos no livro vivificam os acontecimentos reais que descrevem, e foram escritos por sobreviventes dos ditos infortúnios... má fortuna.

E as canções do disco, a matéria que aqui verdadeiramente nos importa? Bom, essas vão discorrendo sobre temáticas semelhantes às de Por Este Rio Acima. Subitamente, avistamos terra, o elemento, por um canudo. A água, mais uma vez, toma papel central na narrativa. Ao som do mar e do vento, à deriva, contemplando o céu por inteiro ou lutando pela vida quando se dobra a ponta do cabo, a chusma salva-se como pode das tormentas do mar. Sempre o mar, furioso, mas que ainda assim, adormecidas as fúrias, se entrega todo em ofertas de infinitas riquezas aos náufragos que sobrevivem para contar a história. De facto, creio poder dizer que razo a verdade à tangente se afirmar e jurar aqui a pés juntos que O Mar é das mais belas canções que Fausto alguma vez compôs. A guitarra sibilina, a voz cristalina debitando o riquíssimo poema

"de um remo fizeram o mastro, e a enxárcia de uma linha"

tornam os 6'23'' de O Mar uma experiência de quietude profundamente inesquecível. (Atenção, note-se que digo isto conscientemente. Ou seja, eu sei que a canção seguinte é Recado A Sofala, mas quanto a essa digo apenas o seguinte: é a mais bela canção do mundo)

Mas esta canção é também importante por outra coisa: o vagabundear pela praia, o desamparo, o desalinho de sentimentos e ao mesmo tempo, depois do turbilhão, aquele sentido de profunda sincronia com os elementos, tão profunda que inebria. Esta noção, este assentar de pés na terra, mesmo que nas mais turvas circunstâncias, é essencial para a viragem que se dará a seguir.

Onde se bordeja a terra... o continente...

Cuspidos pelo mar, os nossos heróis, homens como os outros entregues às tristes circunstâncias da fortuna, ou da falta dela, assentam pés em terra e os barcos vão ficar para trás. Daqui para a frente seguir-se-á bordejando terra, tacteando as serranias e as matas. Ora era aqui mesmo que eu queria chegar. O segundo disco de Crónicas Da terra Ardente pode muito bem conter em si o sinal, a chave, daquilo que nos espera no capítulo final: agora sim, terra.

Repare-se, a segunda metade das Crónicas, descontando o humor de A Caçada e o desenfadamento dos tormentos dos mares, pela contemplação da beleza feminina, de A Explicação Das Flores, é quase toda ela arrasadora. Em Diluídos Numa Luz, ensaiando de forma perfeita novos caminhos para a música de Fausto, a dor adquire contornos místicos profundamente tocantes. A Tua Presença é um assombro e a saudade cristaliza-se por alguns instantes entre os nossos ouvidos - se fecharmos os olhos vêmo-la. Levantando-se o arraial relaxa-se um pouco mas logo Os Soldado De Baco repõem tudo nos eixos com a sua sangria desenfreada. Segue-se outra carnificina em Pela Fome Comidos e chega-se a outro tesouro - Manuel de Sousa Sepúlveda. Numa palavra - tragédia. Não digo mais nada por respeito ao sofrimento que ali se descreve. E que dizer de A Travessia II? Nada, não digo nada: oiça-se apenas. O que aqui temos é o homem abandonado a um estado impossível de imaginar ou quase

"o que sinto ainda é aquele cheiro agoniante da baba pegajosa e pestilenta que escorria lentamente das queixadas dos chacais,

o resto são sombras de coisa nenhuma
não recordo mais nada
não me lembro de ninguém
não me lembro de pessoa alguma

o que foi que me aconteceu
minha vida
o que foi que me aconteceu"

parece afinal terminar tudo assim... tendo chegado ao outro lado do mundo em nome de algo maior que a vida... apenas para nos esquecermos dela? para esquecer o que é um homem? onde foi que nos teríamos perdido? o que é um homem? o que é um homem?...

Este disco é pelo menos tão genial como Por Este Rio Acima. Não o reconhecer é uma injustiça do tamanho do sol.
 

Créditos:

 

http://cristalina.multiply.com

http://laranjamarga.weblog.com.pt/arquivo/197533.html



Partilhar:

Para poder comentar necessita de iniciar sessào.